sábado, 12 de abril de 2008

Meu Inquérito Virtual


Sinto-me um crápula. Acabei de desvirginar um CD. Apossei-me de sua virgindade digital, ávido para garantir com segurança meu arquivo pessoal.

Reconheço: essa não foi a primeira vez. Nem o único tipo de crime virtual que cometi. Desde o inicial momento em que me peguei com o disco rígido, até os dias de hoje, muitos foram os delitos. Lembro quando deitei e rolei na rede metendo o dedo no mouse; quando naveguei na web pirateando músicas e vídeos; quando eliminei arquivos usando apenas um comando; ou quando manipulei meu micro para processar os dados.

Lembro também quando mandei arquivos inocentes para a lixeira, só porque não me serviam mais; quando abri programas para proveito próprio; quando criei pastas pessoais apenas para esconder meus dados; ou quando reiniciei tantas e tantas vezes o meu micro somente porque ele não estava agindo como eu queria.

Embora nesse momento esteja eu um tanto envergonhado, não posso deixar de registrar que, nesse universo paralelo, também fui herói: salvei arquivos; protegi dados com antivírus; compartilhei informações pela rede; imprimi imagens e causei boa impressão; expandi a memória para melhorar o desempenho do micro; ampliei espaço para abrigar mais arquivos; além de outras louváveis ações.

Sinto-me agora dividido entre os bons e maus feitos, registrados nesse meu inquérito virtual. E nem mesmo nesse foro, que dirime as questões da era digital, estou livre da dualidade que me compõe. Resta-me, assim, manter-me conectado...

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Seres Virtuais


Ontem te vi na internet. Cheguei até você utilizando o mouse. Mas, como poderias estar lá? Sei lá! Nesse mundo virtual, que a maioria habita sem nada questionar, torna-se possível divagar com palavras dúbias. Falando nisso, cá estou, num Blog, 'falando' pra você. Onde estás? Como me 'escutas'? Onde vivemos, afinal?

Na era da internet, somos todos teclas de um mesmo jogo, vítimas e algozes transferindo a vida humana real para o complexo virtual. Nesse universo, o terreno também é minado, cheio de perigosas armadilhas.

No Brasil, a CPI da pedofilia pressiona empresas do ramo na tentativa de controlar melhor o que é quase incontrolável. O Google, assim, anda se comprometendo a filtrar o lixo internético, especialmente os ligados à pedofilia. Os doentes que se cuidem...

Nos Estados Unidos, um crime real aconteceu na tentativa de conseguir fama virtual. Seis garotas (sim, do sexo feminino!) agrediram outra menina, com o simples intuito de filmar a agressão e colocá-la no You Tube. A vítima está com problemas num dos olhos e orelha e as agressoras estão sob inquérito policial. Os doentes que se cuidem...

Aonde vamos parar???

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Ha-ha-ha-ha-ha...

Descolorido.
Desnarigado.
Sorriso sem brilho.
Feio, torto, atrapalhado.

Eu... Palhaço...



Estamos com o humor em alta! Sim! Vivemos tão desenfreadamente focados numa ilusão coletiva que protagonizamos verdadeiras comédias cotidianas.

Assim foi com o ladrão carioca, que devolveu o carro que havia roubado de um taxista após a mulher deste, desesperada pela perda do ganha-pão familiar, implorar via celular (cujo aparelho também estava de posse do meliante) para que o veículo fosse devolvido.

Assim também foi com os seqüestradores do filho do desenhista Maurício de Sousa, que libertaram o garoto (e também a sua mãe) sem ver a cor do dinheiro do resgate – dizem que desistiram da ação criminosa após Maurício ameaçar colocar a Turma da Mônica no caso...

Assim foi, ainda, com um advogado preso após ser flagrado na entrada de uma penitenciária, levando aparelhos de celular escondidos para bandidos – o “homem da lei” agindo como moleque do tráfico.

Hilário! Nós somos uma piada! E enquanto outros ‘atores’ vão dando forma a novas ‘atuações’ estapafúrdias, vou continuar com a minha acidez comedida, afinal, também sou um palhaço nesse circo da vida humana. Ha-ha-ha-ha-ha...

domingo, 6 de abril de 2008

Aqueles que se Entregam à Própria Sorte

Arcabouço disforme,
Desarmonia reinante em corpos retorcidos,
Forçadamente amiudados,
Guardando em si atrofiada mente,
Auto-absorta,
Nodosa.

A capa, assim, já nem serve
E o âmago amarga o apressar do passo,
Esse inocente e intencional acelerar humano.

Os voluntários se auto-sentenciam,
Guardam concorrida turba no leito de morte,
Recatadas pr’aqueles que se entregam à própria sorte.

Cumpra-se, então, o dito adágio!



Observo-nos. Como nos deixamos envelhecer! Decrepitude mental que se reflete no corpo, o ‘arcabouço disforme’, imagem de eu’s complexos, reprimidos, insatisfeitos, revoltados.

Somos todos gordos. Cheios de egoísmo, violência, culpa, medo, solidão. A obesidade moral nos consome, dia após dia, como um carrasco voraz. Deixamo-nos atrair pela cobiça, como se nós mesmos não nos bastássemos. E esse mal coletivo perdura...

Eu também estou gordo. Um tanto farto desse excesso de notícias ruins, desse nosso exacerbado senso de exploração do comum e do absurdo: a prisão do homem pago para cuidar de um idoso de 81 anos (e que, ao invés disso, espancava-o); a morte da modelo (mais uma) por anorexia, na busca desequilibrada pela beleza; a mulher que, de tão gorda, morreu esparramada numa cama...

Pois é... Ao que parece, somos todos aqueles que se entregam à própria sorte...

sábado, 5 de abril de 2008

Adeus e Solidão

Olhos apertados
Lágrimas reprimidas
Magoei a menina...
Dos meus olhos.

Peito apertado
Batimentos sofridos
Machuquei os inquilinos...
Do meu coração.

Agora todos se foram...
Sofrerei sozinho, então.



Enquanto o vulcão Kilauea explode no Havaí, no Brasil a mídia se delicia em explorar o caso da menina Isabella Nardoni - mais uma inocente vitimada pelo nosso caos social.

Enquanto muitas crianças tornam-se vítimas dos desequilíbrios adultos - dos pais, de familiares ou de estranhos -, a sociedade se choca, manipulada pelos meios de comunicação, que tornam o suposto (e provável) assassinato da garotinha branca e rica em questão nacional.

Quantas Isabellas (negras, pardas, pobres, miseráveis) morrem todos os dias? Quantas delas ocupam o horário nobre da televisão ou as principais páginas dos maiores jornais brasileiros? Quantas não morreram com igual ou maior gravidade?

Enquanto o Brasil chora lágrimas incongruentes - e a mídia alimenta sua audiência -, o vulcão Kilauea continua dando um show de beleza, mostrando a força e a exuberância da natureza. Talvez para nos mostrar o quanto ainda damos adeus ao bom senso e mergulhamos na solidão.
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Soframos todos sozinhos, então...

sexta-feira, 4 de abril de 2008

54 Pés


Olho para baixo...
São apenas os meus dois pés...

Antes era os pés da besta:
Pé de pau, pé de mato, pé de planta,
Pé de moleque, pé de morro, pé de rampa,
Pé de anjo, pé de serra, pé de pinhão,
Pé de chulé, pé de chuva, pés no chão.

Depois foi tudo ao pé da letra:
Pé de lancha, pé do ouvido, pé de cobra,
Pé de pato, pé de gente, pé de cabra,
Pé no saco, pé de coelho, pé de guerra,
Pé na tábua, pé na estrada, pé de atleta.

Mais pra frente, pé na bunda:
Pé do toitiço, pé nas costas, pé de mesa,
Pé de dinheiro, pé rapado, pé de cana,
Pé grande, pé do cipa, pé de chumbo,
Pé de moça, pé de meia, pé de juízo.

E, no final, só pé de galinha:
Pé quente, pé frio, pé de chinelo,
Pé de ouro, pé de boi, pé de valsa,
Não tá de pé, nem vai dar pé, só pé de escada,
Pé na jaca, pé na lama, pé na cova.

Olho para baixo...
São apenas meus dois pés...
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Com quantos pés se faz uma vida? Andamos por aí, pés no chão e cabeça para o alto, ávidos por viver, sedentos por um planeta mais humano - e, por que não, mais divertido. Afogamo-nos em risos e lágrimas e entramos com os dois pés no que acreditamos ser o melhor para nós mesmos. Mas, infelizmente, o mundo anda girando com o pé esquerdo.

Tomando pé das notícias locais, deparei-me com algo aterrador: o tio que matou a sobrinha de três anos a foiçadas, ontem, em Jupi (PE). Ainda estou de quatro pés com o impacto da nota - e da barbaridade cometida pelo alcoólatra, que quase foi linchado pela população.

O ser humano anda vivendo sem pé nem cabeça. Quando tomaremos pé das nossas próprias noções de civilidade? Quando daremos pé de nós mesmos? Até quando permaneceremos sem um pé de juízo?

Assim, a minha intenção de brincar com a ‘Língua’ através dos ‘pés’ acabou não dando pé. Fazer o quê? Essa é a nossa triste e real gramática...

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O Fungo, a Dor e o Exemplo de Gaby

“Como posso gritar
Se não consigo falar?
Como posso deixar de amar
Com a semente de uma mulher
Dentro de mim?
Deus, se a vida é tantas coisas
Que não sou e nunca serei,
Dê-me força para ser o que sou”.

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Estou com uma inflamação no ouvido. Um fungo ousado decidiu entrar e se instalar no meu canal auditivo esquerdo. Estou convivendo com a dor, embora confesse que tenho lutado contra ela.

Dor. Companheira dos homens desde os primórdios dos tempos. Eis que ela vez por outra aparece, seja infligindo sua tenacidade no corpo físico ou no emocional. E por que tanto repelimos-na? Por que, após tantos milhares de anos, a vida humana não aprendeu a conviver com ela?

Olhemos ao redor. A dor está em toda parte, capciosa, abrindo espaço nesse vasto mundo. Até aí tudo bem. O problema é que, com ela, perdura o sofrimento, esse, sim, reflexo da nossa incapacidade em entender a dor. Por que tantas coisas doem em nós? Quando deixaremos de lado a pretensão de querer ser melhor do que somos, deixando de nos doer tão facilmente?

Esse é o ponto. Exceto nos casos clínicos agudos - e ainda assim é possível conviver com ela -, a dor é a maior prova da nossa incapacidade de apenas ser. Para saber o que é ser são, é preciso a loucura; para saber o que é ser saudável, é preciso sentir dor; para saber o que é felicidade, é preciso saber o que é o desamor.

Está bem... Está bem. Vou ignorar as minhas palavras iniciais. Afirmo: não estou sentindo mais dor. Estou começando a pensar no fungo como um grande amigo, um vizinho temporário que veio habitar no meu ouvido, próximo ao meu cérebro, talvez, só para me dizer o quanto preciso apenas ser. E parece que estou aprendendo... Valeu, fungo!
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Os versos publicados no início desse post são da escritora Gabriela Brimmer - ou apenas Gaby. Nascida com paralisia cerebral, viveu limitada a uma cadeira de rodas (foto). Só mexia o pé esquerdo, não falava, se comunicava apenas pela escrita via datilografia ou digitação (feita com o pé!). Suas palavras - e o exemplo da sua força em vida - revelam uma mente fantástica. Que o seu exemplo, então, nos inspire também a apenas ser... Valeu, Gaby!

segunda-feira, 31 de março de 2008

A Chama e as Chuvas


A chama olímpica chegou em Pequim. Símbolo de paz e união entre os povos através do esporte, teve seu brilho ofuscado pela questão envolvendo a China e o Tibete, trazida à tona por manifestantes quando a tocha foi acessa na Grécia, dias antes. País conduzido com mãos de ferro, a China encontrou um bom motivo para repensar as suas relações com o mundo e, especialmente, com o seu próprio povo: a realização dos Jogos Olímpicos. Será que vai rolar?

Do outro lado do planeta - aqui em Recife -, o mundo se dilui embaixo d’água. Não o meu e o seu, que nos possibilita sentar confortavelmente utilizando um computador enquanto a chuva cai torrencialmente; mas o da população mais carente, que sofre com mortes, acidentes e a perda dos poucos bens materiais por conta das chuvas e da conseqüente queda de barreiras. Será que vai continuar a rolar?

Que chuvas de paz orientem o oriente. Que a chama da solidariedade inunde o povo recifense. Que milhões de gotas de amor sensibilizem governantes nos dois (e em todos) lados do planeta. E que, enfim, a tocha da esperança continue acesa no coração de toda a humanidade. Aí, sim. Vai rolar.
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A imagem acima é uma arte produzida pelo movimento Repórteres sem Fronteiras, numa crítica visível à realização das Olimpíadas 2008 em Beijing. Eis a nossa união.

domingo, 30 de março de 2008

Meu Minuto de Silêncio


A imagem mostra a covardia humana: a temporada de caça às focas, no Golfo de São Lourenço, no Canadá. Sob protestos em todo país, os caçadores valem-se da quase total indefensibilidade desses animais, agindo com violência em nome do dinheiro.
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Hoje sofrem as focas. Todos os dias sofrem os frangos, os bois, os porcos. Financiamos a selvageria humana, que insiste em manter-se mais animal que humano. Consumimos o sangue dos animais, o oxigênio do planeta, o verde das florestas, o ozônio da atmosfera... Tudo por mero interesse financeiro - sim, dinheiro que cobiçamos desenfreadamente, mas que não levamos quando partimos.
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Paro por aqui. Não vou escrever mais nada. Voltarei ao meu minuto de silêncio...

sábado, 29 de março de 2008

Nós Abortamos Ângelo


Apenas uma semana de vida. Sequer foi batizado. Chamá-lo-ei de Ângelo (embora alguém já tenha sugerido o nome de Renato). Abandonado ontem pela mãe na portaria de um prédio em Brasília, ainda que sem querer, expôs a nossa miséria social. Questões macro - como a educação e a igualdade sócio-econômica - e micro - como a responsabilidade de gerar um filho e assumir as conseqüências de um relacionamento sexual - vieram à tona com a mesma força da imagem na TV.

A frieza do abandono se compara a um aborto. Ângelo é, sim, fruto de um aborto social, cria da nossa incapacidade em lidar com os efeitos dos nossos próprios atos e, acima de tudo, de conviver coletivamente com justiça e amor. A mãe de Ângelo é, também, um reflexo do que somos.

Uma penca de gente vai surgindo na ânsia de adotar o menino. Claro. Famoso - possivelmente, no futuro, foco de uma matéria num telejornal qualquer (“lembram da criança abandonada há 18 anos em Brasília...”). Adoção? Sim! Lição de amor, contudo, é conseqüência dessa miséria. E a causa? Quando encontraremos a cura para nós mesmos?

Ângelo chora. Continua sentindo a ausência da mãe. Permanece esperando que tantos outros, como ele, sejam enfim amados. Quantos bebês ainda iremos abortar?
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* O texto acima foi baseado em fato verídico, acontecido na Capital Federal em 28 de março de 2008. Esse é o nosso mundo...