Há cercas entre nós. Há muros insistentes que nos dividem. Sou somente um miúdo grão nessa seca que abarca o mundo. Tenho fome em mim, mas o teu olhar não me alimenta. Tenho frio em minha pele quente, mas o teu abandono não me agasalha. Tenho dores inconsoláveis, mas o teu amor não chega a mim. Onde estás que não me ouves? Esse imenso Sertão é abundante em meu corpo apequenado. Há, sim, riqueza em mim. Pena que não (me) vês...
quarta-feira, 2 de março de 2016
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Confissões de uma Esquina
Era apenas
um velho aos meus olhos de pedra. Solitário. Conduzido por pés desjuvenescidos.
Alheio a outros dois jovens membros inferiores que seguiam almejando uma
estranha colisão – cujo ser que os conduzia trazia olhar de frieza, assim como
era fria a lâmina que tentava se aquecer sobre a pele da cintura. Está bem...
Éramos só nós três naquela madrugada sempre embriagada pela maresia – o velho,
o desconhecido e eu –, cada qual com sua solidão distorcida. E a colisão,
inevitável, foi tripla. E os meus olhos empedrecidos arregalaram-se com o
surrupio do vento abençoando o vil golpe. O cair do velho homem aos meus pés de
pedra. E o correr do meliante com o arrecadado naquela breve ação – e com
aquela velha alma outrora vivente em suas gélidas mãos...
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Banquete Num Planeta em Formação
Só
* Fragmento que estará no novo livro de Sidney Nicéas, "Noite em Clara - um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos.
sábado, 27 de junho de 2015
SIDNEY NICÉAS ESTÁ MORTO! (26/06/15)
"Porque não há fardo maior nessa vida do que carregar a si próprio". Essa frase é de um escritor enxerido chamado Sidney Nicéas (e estará enfeitando a fala de um personagem seu num livro futuro). Aliás, essa frase ERA dele. Eu matei Sidney Nicéas. Hoje. Dia do seu aniversário.
Matei. Há 40 anos eu o suportava. Um fardo. Não aguentei mais. Fiz o favor de retirá-lo abruptamente desse plano. O escritor está morto. Aliás, parte dele. A outra parte (eu) renasceu de suas próprias cinzas mortas. Um outro Sidney que se manifesta aos poucos. Talvez menos idiota, menos orgulhoso, menos teimoso, menos sonhador. Talvez mais maduro, mais consciente, mais confiante. Talvez.
Eu matei Sidney Nicéas. E confesso: não foi a primeira vez. De ciclo em ciclo eu renasço. E percebo que estar vivo aqui é estar cada vez mais morto. A cada aniversário perco vida e ganho morte - a morte que me faz realmente vivo. E é esse antagonismo estranho que me impele a matar o escritor e a renascer do seu cadáver que só se deteriora - em antagonismo com a sua alma que somente tenta crescer.
Está bem. Eu sou a alma de Sidney Nicéas. Eu o mato. Eu renasço. Eu morro a cada dia para essa vida estranha e vivo ainda mais para a eternidade – quanto mais eu morro, mais eu vivo. Não adianta me prender. Já sou prisioneiro desse corpo que só morre. Mas a cada aniversário eu fico mais perto da liberdade. E dessa alegria que me faz, no dia de hoje, palavras e celebração.
Eu matei Sidney Nicéas. E renasci...
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
É O TERROR!!!
É o
terror!!! É o terror!!! É o terror!!!
Os anos dois
mil eram o futuro... E eis que dois mil e quinze chegou sob bombas – de
artifício e também de verdade, com tiros matando franceses.
É o terror
vinte e quatro horas na TV!!!
E a África
continua sendo implodida por radicais que matam milhares a sangue frio. E o
Taiti permanece afundando no caos de escombros de tragédias recentes.
É o terror
sem espaço nas TVs!!!
E milhares
de pessoas, incluindo diversas autoridades (isoladas dos reles mortais!), foram
às ruas de Paris pedir por paz (e se for igual ao Brasil, aonde as intenções se
esvaem com o passar dos meses, o bicho ainda vai pegar). Enquanto isso, nenhuma
voz ecoando contra os males que se proliferam nas nações empobrecidas.
É o
terror!!! É o terror!!! É o terror!!!
(e enquanto o terror continua detonando o mundo - desde que o homem é homem -, a gente
vai levando essa vida...)
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Quedante
Foi
quando ela quis voar. Jogar-se da sacada de seu luxuoso apartamento, no último
andar. Uma torre alta, à altura de uma mulher em altos apuros. Não havia mais o
seu querer por um mundo sem calma, um casamento sem cama, uma profissão sem
gana, uma vida sem alma. Coragem ou covardia? Todos haveriam de se questionar.
Mas de que diachos serve o dizer alheio? Danem-se! Voar soa melhor do que
sofrer! Ser está muito além desse insosso viver! Há, sim, força no meu voar! Os
pés no parapeito. O sopro invisível a tremular os seus cabelos. O buraco negro
da noite a lhe fitar. As pequeninas luzes muito abaixo de si. A imensidão do
universo muito acima da sua pequenez social. Era a hora. Os olhos se fecharam.
As pernas tremeram. Voar é, sim, melhor do que sofreeeerrrrr... O mergulhar no
vão da vida foi-lhe mais prazeroso do que pensava. Mas somente por ínfimas
frações de segundo. Constatar-se desprovida do poder da própria vida doeu.
Mais. Deu-lhe consciência. Mas... E agora? “Meu corpo cai!”, gritou. “Vai-se o
corpo meu!”, compreendeu. A força da gravidade contrastando com o peso de suas
palavras, pensadas e emitidas com urros inaudíveis para o resto do infinito.
“Mas...”, pensou. “Eu tenho alma... EU TENHO ALMA!!!”. O corpo, contudo, continuou
a cair. E foi caindo. E os seus olhos abertos enxergaram o asfalto cada vez
mais próximo. E os seus olhos fechados esperaram a dor do fim. E o bater no
solo a fez abrir os olhos. Em sua cama, o abrupto acordar foi-lhe alívio. E o
suor nos lençóis parecia lhe dizer: tens corpo. E ALMA...
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
Pobre Paixão
Lidar com a
política como se lida com o time de futebol, ou com a religião que abraça, ou
com qualquer outra escolha em que se coloca a paixão acima da razão é...
Escolha. Infeliz. Voto também é escolha. E toda escolha requer razão. E toda
paixão acima da razão ilude, divide, empobrece.
Não me interessa
em quem votas. Nem a ti em quem votarei. Disseminar calúnias, informações
dúbias ou encher o outro com excessivas informações sobre qualquer que seja o
candidato é querer impor a própria opinião. O povo brasileiro não se cansa de
se repetir. De se perpetuar trouxa nas mãos de espertalhões.
Na internet,
a manipulação é oficial. Pessoas de idades e formações variadas são contratadas
(isso mesmo: pagas) para produzir informações (verdadeiras, falsas ou
tendenciosas), comentar publicações e disseminar interesses nas Redes Sociais, em
Blogs e Sites diversos. Via e-mail também. E tantos debates acalorados são,
assim, direcionados. E tantas opiniões manipuladas. E tantas pessoas ignoram
todo esse jogo de manipulações. (e não vou nem citar aqui a TV e o indefectível Horário Político)
Eis aí, no
âmbito nacional, três propostas um tanto distintas na teoria, mas tão
semelhantes na prática: grupos querendo se perpetuar ou retornar a ocupar o
poder. É pra votar? Está bem. Do jeito que está, escolhamos as opções menos ruins.
Agora querer fazer do pleito a panaceia de sempre, justificada por pseudodiscussões ideológicas
é... Escolha. E eu mantenho a minha. Calo. E voto – confesso, um tanto injuriado.
Novamente.
domingo, 17 de agosto de 2014
A Educação dos Urubus (Ou Não)
Primeiro
foram carros de som nas ruas convocando o povo. E chamadas na televisão com
idêntico fim. Depois foi a multidão invadindo as ruas. Amanhecendo nas vias da
cidade do Recife em grande aglomeração. E seguindo num domingo agitado, com direito a
missa campal.
Aplausos. Choros
de anônimos. Gritos de “guerra” – também partidários. Cantos religiosos. Pessoas
fantasiadas. Demonstrações de amizade com quem sequer se era conhecido. Flashs
em demasia. A TV explorando closes impensáveis. Selfies sorridentes junto ao
caixão – ou com a viúva. Vaias. Discursos repetitivos. Declarações exageradas
que alçavam um homem público a condição de santo. Teve até apresentação
musical. E foguetório.
(Ah... Sim.
Tinham também familiares e amigos próximos nessa cerimônia de despedida,
transformada por muitos num evento festivo – a força de uma família que
enfrentou a tudo e a todos com força e dignidade).
E enquanto
constatamos, de um lado, uma comoção pública, vimos excessos transmitidos ao
vivo. A simplicidade de um povo entristecido contrastando com gente anônima (e também
famosa) querendo aparecer em rede nacional. Uma falta de bom senso misturada com
o desejo de se despedir de uma figura pública recentemente falecida, de forma
trágica e misteriosa. Um show de antagonismos.
O que
significa tudo isso? Apenas um povo simples misturado com uma multidão sem preparo
para determinadas ocasiões. É a educação dos urubus (aqueles que se aproveitam
sempre para aparecer, não importando o luto). É o ainda despreparo da mídia para
focar no que deveria ser realmente focado (e, em muitos casos, o mero interesse
na audiência). É o uso político em momentos em que não se cabe. É, enfim, o
paradoxo de um país ainda jovem que não sabe lidar com determinados fatos
marcantes de sua história.
OBS.: talvez toda cerimônia de despedida
devesse ter mesmo todos esses ingredientes que vimos no velório e enterro de
Eduardo Campos. Ou não...
segunda-feira, 28 de julho de 2014
Falsa Traição
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