sábado, 3 de dezembro de 2011

Passo (Parte 1)


Cada passo dado é um novo passo rumo ao desconhecido. E a vida vai passando. E os passos vão persistindo. Eis que um dia restarão somente pegadas, rastros das firmes passadas de outrora, tão somente restos vividos.

Passo cada minuto envolvido em pegadas. Piso. Rastejo. Corro. Caio. Levanto. Persisto. Eis que um dia não restarão somente pegadas. Terei sido eu construindo a mim mesmo, deixando rastro pela estrada.

Tudo passa. Passamos horas vagando, aqui, acolá. Desperdiçamos passadas como se pudéssemos nos bastar. Mas tudo realmente passa. Até mesmo os passos nos bastarão. Mas a caminhada há de continuar...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Homem Velho que Sou

Foto: Arnaldo Carvalho

Às vezes
Sinto-me tão senil,
Um homem velho,
De velhas idades,
Idades estas vividas
Num curto ciclo juvenil.

Talvez seja a vida
Impondo-me seu relógio veloz,
Com ponteiros ousados,
Sincronizados com um tempo finito.

Talvez seja eu mesmo,
Impaciente, audaz,
Burlando meu chegar paulatino
Com passadas apressadas.

E esses “talvez”, agora,
Sequer interessam mais,
Pois vejo que tão somente sou
Como qualquer outro,
Velha alma, jovem corpo,
Ser longínquo sem idade...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Todos Eles Vivem em Mim...



Nada de finados
A morte não é o fim
Penso cá dentro de mim
E lembro o meu irmão caçula Saulo
Minha avó Dôra
Meu avô paterno Luiz
O saudoso tio Paulo
Aretusa, Artoni, Mário
O estimado tio Ary
Adriana, Hélder, Branta
Meu avô materno Amarílio
Elias, Penha, Seu Zé, Geni
Luluca, Dida, Maria Eduarda
Tio Ivan, tio Lio e o amigo Sissi
Bisavós Coleta e Nina
Zeca, Paúca, Dodô, Maurílio
Inaldo, Fanca, Erisson, Dona Bibi
Estes, assim como tantos outros
Não estão mais por aqui
Mas finados nunca foram
Vivem e a eles louvo
Todos eles vivem em mim...

domingo, 30 de outubro de 2011

Sem fronteiras


Voei...
Além da mente...

Aqui chegamos sem pagar nada.
Aqui todos se apossaram de tudo.
Aqui respiramos de graça.
Aqui compartilhamos vidas e graças.
Aqui segmentamos o mundo.

Voei...
Além da mente...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

É? Não é?



Ilusão é presente. De grego.

Ponteiro de relógio é digital. Dígito é gente. Gente hoje é animal. Pra hoje é pra ontem. Chão agora é disputa. Policial, bandido. Casal é separação. Casa virou prédio. Cama virou zona. Vida virou dor.

Homossexualismo é moda. Lixo hospitalar é roupa. Caixa eletrônico é dinamite. Flanelinha é dono de rua. Honestidade, artigo de luxo. Sexo é coisa de “criança”. Bala não é mais doce. Droga não é mais remédio. Tudo aqui é ilusão.

Ilusão é presente. De grego.


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E NÃO ESQUEÇA: SÁB | 22/10 | 19h
Sidney Nicéas e convidados na Saraiva do Shopping Recife!



domingo, 16 de outubro de 2011

Miséria



Encanto. Essa foi a palavra que melhor resumiu o primeiro encontro de Cibele e Jair, na bela Aracaju. E o alagoano não mediu esforços para se fazer muito mais do que era para a carente sergipana.

Poucos dias se passaram. Primeiro, os beijos. Depois os amassos. A cama acabou sendo destino inevitável – e porque não dizer, inconsequente: a gravidez foi uma notícia nada agradável para ela, que aos 32 anos tornar-se-ia mãe de única cria, vivente num aperto daqueles. Para ele a aventura ia continuar, passando a ser talvez a maior nos seus 18 anos de vida, ainda que o dinheiro também lhe fosse curto.

Não tardou para que as brigas começassem. Primeiro sintoma de desequilíbrio, elas refletiam a contraditória união de necessidade e imaturidade, combinação nada feliz naquele contexto amoroso. O fogo da paixão que os arrebatara fora cedendo com o tempo, ante as diferenças outrora ignoradas. A relação, assim, foi-se amiudando e se espremendo entre aqueles corações desgovernados.

De crise em crise, o pequeno Lucas nasceu já sem pai. Jair nunca mais deu as caras. Sem emprego, dinheiro nem apoio, Cibele passou a pedir nas ruas, levando consigo seu bebê. Sentiram fome. Dor. Abandono. E o passar do tempo a fez sucumbir...


Quem vai julgar uma mãe que dá o próprio filho? Quem vai acusar uma mulher que tira a própria vida? Quem, em seu lugar, não se entregaria à miséria? Quem???

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Efeito Estufa


O mundo estava um caos. Desordem reinante espelhada no tráfego intenso, engarrafado, sufocante. O termômetro, no imenso painel eletrônico localizado numa das esquinas, revelava trinta e sete graus. O calor só aumentava a sensação de agonia.

A longa avenida, que cortava casas e prédios, parecia um mar de carros. Ao longe se percebia um vapor que subia do solo e causava sensações de inquietação. Era um caldeirão fervente que em nada agradava a quem ali se encontrava. O vento, escasso, decidiu também parar e o clima foi ficando ainda mais insípido. Até as árvores, acostumadas a bailar em público, se renderam ao destempero do momento.

Alguém, então, decidiu utilizar a buzina como ferramenta de pressão sonora. E o barulho, que já era grande, ficou insuportável devido a participação de vários outros motoristas, que passaram a reger uma orquestra infernal. O que estava lento passou a ficar definitivamente emperrado. Uma multidão de veículos ligados, a poluir o ar e os ouvidos dos transeuntes, abrigando gente estressada e fatigada sob um sol escaldante.

Nos escritórios e lojas, que dividiam espaço com as residências no imenso logradouro, o caos se espalhou: uma pane na energia elétrica fez com que os funcionários saíssem de seus postos. Toda a região ficou sem energia e o engarrafamento ganhou novos adeptos, pelo menos no que tangia ao fomento da conturbação. Nesse ínterim, a temperatura subiu para quarenta graus e o calor se intensificou com rara astúcia. E havia quem dissesse que o clima na avenida era ainda maior.

A agitação ganhou intensidade quando alguém decidiu descer do carro. Entre esbravejos e gestos incontidos, logo a atitude solitária foi ganhando simpatizantes. Além do engarrafamento, do calor, das buzinas e da poluição, agora todos se deleitavam também com o burburinho, que começou a gerar discussões. Palavrões foram proferidos. A educação tomou distância e um tumulto isolado ajudou a amplificar a desordem.

Nas calçadas, um público cada vez maior acompanhava o desarrumo. Mais que isso, muitos passaram a compartilhar daquele sentimento de revolta, insatisfação plena por somente estar ali. E um ambiente negativo, progressivamente, passou a predominar, ocasionando confrontos verbais acirrados que não tardaram em materializar-se em isolados atos de pancadaria. Cada um que quisesse resolver as coisas da própria maneira, sem perceber que em nada aquele quadro se modificava.

No auge do esperdício humano, um vento frio soprou com intensidade. A rajada invadiu toda a área e produziu de imediato um inesperado processo de inanição. Quem brigando estava parou; quem discutia perdeu a fala; quem acionava a buzinava viu a força se esvair; e todos se entreolharam, naquelas frações de segundos, com uma profunda sensação de estranheza, um medo instintivo do pior.

Mas o vento logo cessou. O tempo também. Todos permaneceram imóveis, sem reação ante aquele incomum deslocamento de ar. O calor persistiu, impetuoso. No céu, um bando de pássaros cruzou o azul em direção ao norte. As pessoas, emudecidas, retornaram aos seus carros, casas e empresas, encerrando o caos de forma também imprevisível. O misterioso sopro do desconhecido agiu com destreza. E o trânsito, enfim, foi se desfazendo aos poucos...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Implacável



Ela abriu a porta
E foi embora.
Varreu em segundos
A minha vida.
Quebrou. Estremeceu. Zuniu.

Destelhou meu teto
E se foi.
Demoliu em segundos
As minhas pilastras.
Amaldiçoou. Triturou. Sumiu.

Ainda despedaçou meu chão
E partiu.
Dilacerou em segundos
As minhas estradas.
Correu. Pisoteou. Fugiu.

Ela...
Ventania...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Entre o Nascer e o Morrer

“Gostaria de dizer-vos mil coisas que compreendo, estando à porta da eternidade, mas eu não morro, entro na vida, e tudo o que não vos posso dizer neste mundo, far-vos-ei compreender do alto dos céus...”. (Santa Teresinha)



Nascimento e morte são as únicas certezas da vida. Pessoas chegam, pessoas vão. Chegadas e partidas controladas pelas mãos invisíveis do infinito. E esse ir e vir realça a efemeridade da vida humana nesse planeta chamado Terra.

A certeza na imortalidade da alma é contraponto ante ao estado ilusório da matéria. A vida terrena é, sim, uma ilusão. Estamos de passagem. Aqui chegamos e, daqui, voltamos pra casa, para a verdadeira vida. A ilusão da matéria causa cegueira, travestindo a real percepção de que somos espírito, alma – e não um frágil e destrutível corpo de carne.

Enquanto vivos, somos ludibriados pelos sentidos. As sensações são o estado supremo da ilusão. Prazer e dor envolvem o ser humano como se fossem reais. E não são. O mestre indiano Paramahansa Yogananda costumava se referir à vida humana como um “filme cósmico”. Aqui chegamos como atores para interpretar papéis dos mais diversos, até que encontramos Deus, o grande Diretor – e Ele não está em outro lugar senão dentro de cada ser.

O equilíbrio, assim, é a meta. Ser comedido nos momentos de alegria e de tristeza é receita infalível ante a ilusão sensorial. Vida e Morte não existem. Apenas somos. E nos momentos mais difíceis é que precisamos dessa compreensão.

Entre o nascer e o morrer há o tempo. Coisa nossa. Passageira, mas que nos proporciona a ideia de que é preciso, sim, crescer. Ser mais. Evoluir. Amar. A saudade dos que ‘voltaram pra casa’ torna-se, então, algo saudável ante a certeza da vida eterna – e do reencontro.

Esse texto é dedicado a todos aqueles que passam por situações difíceis em todos os rincões do mundo. É, também, mais uma tentativa pessoal de absorver essa filosofia tão real e ainda tão difícil. É, acima de tudo, a minha sincera homenagem à família Nicéas pela tragédia acontecida nesse final de semana em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Que Deus nos abençoe, hoje e sempre...


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“Para cada um virá um tempo em que perceberá que todo o universo foi um sonho: quando descobrirmos que a alma é infinitamente melhor do que o que a cerca. É apenas uma questão de tempo, e o tempo nada é diante do infinito”. (Shirdi Sai Baba)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

'Os Donos da Rua' Novamente em Foco

Imagem: RICARDO
FERNANDES/DP/D.A PRESS

A atuação de flanelinhas nas ruas do Recife foi assunto aqui no Blog, em 05 de junho de 2009 (leia: "Os Donos da Rua" - Especial Trânsito - Parte 1). Agora, virou foco das autoridades. Foi preciso uma prisão e uma polêmica na mídia para que as autoridades enxergassem o que todo mundo sempre viu.

A prisão do flanelinha Fabrício de Souza (foto), 21 anos, essa semana no Recife Antigo, foi oportuna para trazer à tona o assunto (ainda que represente de certa forma uma distorção, já que não existem indícios seguros da pretensa extorsão, nem ficaram esclarecidos os possíveis excessos do policial - e também levantou aquela questão de que somente "pretos e pobres" vão pra cadeia). Agora estão querendo normatizar essa atuação. Agora "descobriram" que alguns agentes de trânsito "comem toco". Agora todos decidiram tomar uma atitude - bom, antes tarde do que nunca.

Nos sites que trataram do assunto durante a semana, a maioria esmagadora dos comentários apoiavam a prisão de Fabrício. Em sua grande maioria, pessoas com melhor poder aquisitivo e que desconhecem a realidade das ruas. O flanelinha pode, sim, ter agido mal. Mas quem garante que o policial que o abordou também não passou dos limites? E a situação social do rapaz? E a família dele? Prendê-lo dessa forma resolverá a questão?

Conheço alguns flanelinhas que são íntegros. Não ameaçam. Não extorquem. Ganham a vida de modo limpo. Já tive o desprazer de topar com outros que são exatamente o contrário - basta tentar estacionar no entorno da Rua das Pernambucanas, no Bairro das Graças, para ter um exemplo evidente disso (em dias de grandes eventos na cidade, então, nem se fala).

Há um imenso abismo social por trás de tais questões e uma necessidade premente de corrigir as distorções vigentes. É preciso abandonar os esteriótipos e se aprofundar nas questões mais delicadas da nossa sociedade, se é que queremos transformar a realidade que nos cerca. Esse deve ser o foco.

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EM TEMPO: na tarde de hoje, o flanelinha Fabrício de Souza teve sua prisão relaxada. Ele está solto. Mas as questões continuam...

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