quarta-feira, 2 de março de 2016

O Sertão em Mim (Parte 14)


Há cercas entre nós. Há muros insistentes que nos dividem. Sou somente um miúdo grão nessa seca que abarca o mundo. Tenho fome em mim, mas o teu olhar não me alimenta. Tenho frio em minha pele quente, mas o teu abandono não me agasalha. Tenho dores inconsoláveis, mas o teu amor não chega a mim. Onde estás que não me ouves? Esse imenso Sertão é abundante em meu corpo apequenado. Há, sim, riqueza em mim. Pena que não (me) vês...

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Confissões de uma Esquina


Era apenas um velho aos meus olhos de pedra. Solitário. Conduzido por pés desjuvenescidos. Alheio a outros dois jovens membros inferiores que seguiam almejando uma estranha colisão – cujo ser que os conduzia trazia olhar de frieza, assim como era fria a lâmina que tentava se aquecer sobre a pele da cintura. Está bem... Éramos só nós três naquela madrugada sempre embriagada pela maresia – o velho, o desconhecido e eu –, cada qual com sua solidão distorcida. E a colisão, inevitável, foi tripla. E os meus olhos empedrecidos arregalaram-se com o surrupio do vento abençoando o vil golpe. O cair do velho homem aos meus pés de pedra. E o correr do meliante com o arrecadado naquela breve ação – e com aquela velha alma outrora vivente em suas gélidas mãos...

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Banquete Num Planeta em Formação


O big bang acontecia. Era o peito a explodir. Era tanto nada em pedaços pela cozinha. A alma a cozer numa temperatura fria. Tudo fritava. Quem nunca se perdeu num cardápio incendiário de pólvoras e melancolias?


Era só a ferrugem do ócio a lhe corroer os nervos. Era só o fulgor do sol a afrontar-lhe da janela. Era só uma vontade de nada. Era só. Uma solidão que naquele dia doía. Uma vontade de ser sol para invadir janelas outras e derreter ferrugens alheias. Só vontade. Antiga. Empoeirada nas prateleiras de quem já nada era. E foi a lembrança do nada que ali era que a fez estremecer. Há dias em que é melhor nada ser. As horas caíram. Um laranja lhe acinzentou. Fitou o abrandar do sol. Fez-se vento. Imaginou-se mar. Virou areia...



* Fragmento que estará no novo livro de Sidney Nicéas, "Noite em Clara - um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos.

sábado, 27 de junho de 2015

SIDNEY NICÉAS ESTÁ MORTO! (26/06/15)


"Porque não há fardo maior nessa vida do que carregar a si próprio". Essa frase é de um escritor enxerido chamado Sidney Nicéas (e estará enfeitando a fala de um personagem seu num livro futuro). Aliás, essa frase ERA dele. Eu matei Sidney Nicéas. Hoje. Dia do seu aniversário.

Matei. Há 40 anos eu o suportava. Um fardo. Não aguentei mais. Fiz o favor de retirá-lo abruptamente desse plano. O escritor está morto. Aliás, parte dele. A outra parte (eu) renasceu de suas próprias cinzas mortas. Um outro Sidney que se manifesta aos poucos. Talvez menos idiota, menos orgulhoso, menos teimoso, menos sonhador. Talvez mais maduro, mais consciente, mais confiante. Talvez.


Eu matei Sidney Nicéas. E confesso: não foi a primeira vez. De ciclo em ciclo eu renasço. E percebo que estar vivo aqui é estar cada vez mais morto. A cada aniversário perco vida e ganho morte - a morte que me faz realmente vivo. E é esse antagonismo estranho que me impele a matar o escritor e a renascer do seu cadáver que só se deteriora - em antagonismo com a sua alma que somente tenta crescer.


Está bem. Eu sou a alma de Sidney Nicéas. Eu o mato. Eu renasço. Eu morro a cada dia para essa vida estranha e vivo ainda mais para a eternidade – quanto mais eu morro, mais eu vivo. Não adianta me prender. Já sou prisioneiro desse corpo que só morre. Mas a cada aniversário eu fico mais perto da liberdade. E dessa alegria que me faz, no dia de hoje, palavras e celebração.


Eu matei Sidney Nicéas. E renasci...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

É O TERROR!!!



É o terror!!! É o terror!!! É o terror!!!

Os anos dois mil eram o futuro... E eis que dois mil e quinze chegou sob bombas – de artifício e também de verdade, com tiros matando franceses.

É o terror vinte e quatro horas na TV!!!

E a África continua sendo implodida por radicais que matam milhares a sangue frio. E o Taiti permanece afundando no caos de escombros de tragédias recentes.

É o terror sem espaço nas TVs!!!

E milhares de pessoas, incluindo diversas autoridades (isoladas dos reles mortais!), foram às ruas de Paris pedir por paz (e se for igual ao Brasil, aonde as intenções se esvaem com o passar dos meses, o bicho ainda vai pegar). Enquanto isso, nenhuma voz ecoando contra os males que se proliferam nas nações empobrecidas.

É o terror!!! É o terror!!! É o terror!!!


(e enquanto o terror continua detonando o mundo - desde que o homem é homem -, a gente vai levando essa vida...)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Quedante


Foi quando ela quis voar. Jogar-se da sacada de seu luxuoso apartamento, no último andar. Uma torre alta, à altura de uma mulher em altos apuros. Não havia mais o seu querer por um mundo sem calma, um casamento sem cama, uma profissão sem gana, uma vida sem alma. Coragem ou covardia? Todos haveriam de se questionar. Mas de que diachos serve o dizer alheio? Danem-se! Voar soa melhor do que sofrer! Ser está muito além desse insosso viver! Há, sim, força no meu voar! Os pés no parapeito. O sopro invisível a tremular os seus cabelos. O buraco negro da noite a lhe fitar. As pequeninas luzes muito abaixo de si. A imensidão do universo muito acima da sua pequenez social. Era a hora. Os olhos se fecharam. As pernas tremeram. Voar é, sim, melhor do que sofreeeerrrrr... O mergulhar no vão da vida foi-lhe mais prazeroso do que pensava. Mas somente por ínfimas frações de segundo. Constatar-se desprovida do poder da própria vida doeu. Mais. Deu-lhe consciência. Mas... E agora? “Meu corpo cai!”, gritou. “Vai-se o corpo meu!”, compreendeu. A força da gravidade contrastando com o peso de suas palavras, pensadas e emitidas com urros inaudíveis para o resto do infinito. “Mas...”, pensou. “Eu tenho alma... EU TENHO ALMA!!!”. O corpo, contudo, continuou a cair. E foi caindo. E os seus olhos abertos enxergaram o asfalto cada vez mais próximo. E os seus olhos fechados esperaram a dor do fim. E o bater no solo a fez abrir os olhos. Em sua cama, o abrupto acordar foi-lhe alívio. E o suor nos lençóis parecia lhe dizer: tens corpo. E ALMA...

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Pobre Paixão


Lidar com a política como se lida com o time de futebol, ou com a religião que abraça, ou com qualquer outra escolha em que se coloca a paixão acima da razão é... Escolha. Infeliz. Voto também é escolha. E toda escolha requer razão. E toda paixão acima da razão ilude, divide, empobrece.

Não me interessa em quem votas. Nem a ti em quem votarei. Disseminar calúnias, informações dúbias ou encher o outro com excessivas informações sobre qualquer que seja o candidato é querer impor a própria opinião. O povo brasileiro não se cansa de se repetir. De se perpetuar trouxa nas mãos de espertalhões.

Na internet, a manipulação é oficial. Pessoas de idades e formações variadas são contratadas (isso mesmo: pagas) para produzir informações (verdadeiras, falsas ou tendenciosas), comentar publicações e disseminar interesses nas Redes Sociais, em Blogs e Sites diversos. Via e-mail também. E tantos debates acalorados são, assim, direcionados. E tantas opiniões manipuladas. E tantas pessoas ignoram todo esse jogo de manipulações. (e não vou nem citar aqui a TV e o indefectível Horário Político)


Eis aí, no âmbito nacional, três propostas um tanto distintas na teoria, mas tão semelhantes na prática: grupos querendo se perpetuar ou retornar a ocupar o poder. É pra votar? Está bem. Do jeito que está, escolhamos as opções menos ruins. Agora querer fazer do pleito a panaceia de sempre, justificada por pseudodiscussões ideológicas é... Escolha. E eu mantenho a minha. Calo. E voto – confesso, um tanto injuriado. Novamente.

domingo, 17 de agosto de 2014

A Educação dos Urubus (Ou Não)


Primeiro foram carros de som nas ruas convocando o povo. E chamadas na televisão com idêntico fim. Depois foi a multidão invadindo as ruas. Amanhecendo nas vias da cidade do Recife em grande aglomeração. E seguindo num domingo agitado, com direito a missa campal.

Aplausos. Choros de anônimos. Gritos de “guerra” – também partidários. Cantos religiosos. Pessoas fantasiadas. Demonstrações de amizade com quem sequer se era conhecido. Flashs em demasia. A TV explorando closes impensáveis. Selfies sorridentes junto ao caixão – ou com a viúva. Vaias. Discursos repetitivos. Declarações exageradas que alçavam um homem público a condição de santo. Teve até apresentação musical. E foguetório.

(Ah... Sim. Tinham também familiares e amigos próximos nessa cerimônia de despedida, transformada por muitos num evento festivo – a força de uma família que enfrentou a tudo e a todos com força e dignidade).

E enquanto constatamos, de um lado, uma comoção pública, vimos excessos transmitidos ao vivo. A simplicidade de um povo entristecido contrastando com gente anônima (e também famosa) querendo aparecer em rede nacional. Uma falta de bom senso misturada com o desejo de se despedir de uma figura pública recentemente falecida, de forma trágica e misteriosa. Um show de antagonismos.

O que significa tudo isso? Apenas um povo simples misturado com uma multidão sem preparo para determinadas ocasiões. É a educação dos urubus (aqueles que se aproveitam sempre para aparecer, não importando o luto). É o ainda despreparo da mídia para focar no que deveria ser realmente focado (e, em muitos casos, o mero interesse na audiência). É o uso político em momentos em que não se cabe. É, enfim, o paradoxo de um país ainda jovem que não sabe lidar com determinados fatos marcantes de sua história.



OBS.: talvez toda cerimônia de despedida devesse ter mesmo todos esses ingredientes que vimos no velório e enterro de Eduardo Campos. Ou não...