sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Da Frase, a Reflexão - Parte 3

"Neste Ano Novo, tome a decisão de perceber que, embora como homem mortal você tenha certos hábitos, como ser divino é livre". (Paramahansa Yogananda)



Livres. Somos. Divinos. Maiores. Extraordinários... Quem quer se descobrir de verdade? Quem tem coragem de fazer a maior descoberta? A mais difícil e importante jornada rumo à própria divindade?

Viajar para dentro. Eis o convite. Vamos nessa???

sábado, 11 de dezembro de 2010

Confronto

Eis um trecho do Capítulo III, Parte 1 (A Moral da Aceitação), do meu novo livro "O Rei, a Sombra e a Máscara". Ainda não tem o seu? Adquira já: www.sidneyniceas.com.br (próximo evento apresentando o curta-metragem e o livro na Saraiva Mega Store do Shopping Recife, quinta, 16/12, 19h)...



O voo continuou despretensioso para o rei, naquele vasto céu espaçadamente anuviado. A sensação era de paz duradoura, como um clímax resultante do prazer em ver o sonho materializado, a alegria de enxergar-se na própria criação.

Flutuando nos ares da felicidade o rei seguiu, até que, por vão descuido, um inesperado despencar levou-o ao distante chão. A tosca situação reverberou no âmago do soberano. Como pode um monarca no chão? O que havia por trás daquilo? Fora um invisível golpe? Algo estava errado...

Uma sensação de desprazer logo o invadiu e, antes que pudesse tomar qualquer iniciativa, visualizou escura nuvem manchando o céu multicolorido. Intrigado, o rei percebeu curiosa simetria entre aquele corpo estranho e o seu próprio ser. “Como não conheço o que criei? Será realmente criação minha?”, pensou alto. Refeito, não hesitou em tomar satisfações.

– Criatura: que fazes em meu mundo?

– Eu sou tu. Teu avesso. Parte de ti. Criatura alargando teu mínimo ser, oh! Infame rei!

– Blasfêmia!

– Como? Não conheces a tua própria criação? Não reconheces a ti próprio, pretensa majestade?

– Blasfêmia e audácia! Não vês quem reina por aqui? Tens ideia onde estás a pisar?

– O que vais fazer? Usar-me contra ti ou usar-te contra mim? Hahahaha...

A gargalhada não intimidou o soberano, que se ergueu imponente, decidido a fazer valer sua condição real. E no instante em que se apresentou absoluto, deixando fulgurar sua vasta luz, percebeu o ousado ser crescer em igual tamanho.

– Como podes? Se dizes ser-me, como és? E se assim for, és tão somente criatura!

– Como tu, crio-me conforme teu desejo...

As sensações tenebrosas, até então inéditas, passaram a imperar, deixando o rei completamente dominado. E quanto mais afetado ficava, maior se fazia o ser.

– Magia! - gritou o monarca.

O vento se fez presente com raro furor; trovoadas ecoaram num céu novamente cinzento; sussurros e gritos surgiram do nada; um verdadeiro temporal de sombras configurou-se absoluto. Com um tom de voz cada vez mais monstruoso, a escura sombra retrucou:

– Conhece-te a ti mesmo, ó rei! Enxerga-te em mim! Aumenta e me alimenta, oh! Grande rei! Somos apenas um!

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(Compre o seu livro através do site: www.sidneyniceas.com.br | em breve nas melhores livrarias)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mais um Momento Mágico...

Na sequência: eu e o Maestro Spok; a fila para adquirir o livro; os atores Júnior Aguiar, Asaías Lira, Daniel e Fernanda Soveral; eu em momento de agradecimento.

Para mim tudo foi meio mágico. Lançar o livro e o curta-metragem como queria. Ótimo público, performances arrasadoras dos atores convidados, exibir o curta, lançar o livro e receber tão prestigioso retorno. Sigo ainda mais motivado. E compartilho aqui alguns comentários sobre o projeto e o evento, que recebi por e-mail:

"A noite era de Autógrafos. “O Rei, a Sombra e a Máscara”. O convite foi verdadeiro... O baile era sem Máscaras... O sonho desafiou a vontade até a explosão do “parto”... E os gêmeos nasceram (...) Tudo tem o seu tempo certo. Todo menino, todo homem é um Rei. Necessário é deixá-lo desabrochar mesmo dilacerando as próprias entranhas... Sim, um dos Gêmeos chamou-se Livro e o outro Curta-metragem. Crianças! Depois do “berço”, O Mundo os aguarda! Que a Graça do Altíssimo permaneça com Você, Sidney! (Zildete Pimentel)

"A criação nunca está pronta, movimenta-se no inconsciente, movimenta-se com o tempo (...) Seu intuito é quebrar paradigmas, buscar novos caminhos, fazer indagações, buscar variáveis respostas (...) Parabéns por ontem. Muitos ficam no caminho e não abraçam seus ideais guerreando para concretizá-los. Foi tudo perfeito". (Luiza França)

"Sidney, primeiro gostaria de parabenizar pela coragem, ousadia e competência com que criastes e apresentasse ao um público siginificante suas habilidades. Parabéns e peço a Deus que não fique só nisso, tens muito para apresentares... Outrossim, na primeira oportunidade que tiver com a administração da AABB, vou sugerir, pela experiência exitosa do seu trabalho, batizar as quintas feiras do clube, de Quita Feira Cultural, e, abrir para sociedade com outros eventos". (Edmilson Duarte)

"Perfeita. Com esse adjetivo quero sintetizar minha impressão sobre sua noite de autógrafos, inclusos a performance e o instrumental". Quanto ao livro, comento ao final". (Genival Aguiar)

Na sequência: eu mascarado; público (maravilhoso); o livro e a sua capa dupla; e eu no momentos dos autógrafos.

Obrigado a todos pela força! O projeto continua. Segue. Como a vida. Como nós nesse universo de constante esfera...

domingo, 14 de novembro de 2010

Antes Que o Dia Termine

Antes que o dia termine cá estou eu, sozinho em mim. Assim como tem sido ultimamente. Assim como, ao que parece, sempre haverá de ser...

O sol vai se pondo. Passam das cinco. Abro a janela, no primeiro andar onde me encontro, e o movimento é razoável na rua. Quase em minha frente um pequeno pássaro pousa sobre o fio de eletricidade. Abaixo, na calçada, uma mulher com lenço branco na cabeça vasculha o lixo em busca de algo útil. Dentro de mim, um vazio incompreendido se acentua.

O pássaro permanece quase imóvel. Defeca sem pudores do alto donde se encontra, alheio ao que se passa nesse mundo escuro. Lá em baixo, a mulher do lenço branco me pede algo pra comer, alheia ao que se passa no meu mundo escuro.

Desço e dou à mulher algo pra comer, como ela mesma pediu. Grata, vira-se e segue em frente. De volta, não mais vejo o pequeno pássaro. Ele se foi, seguindo em frente. Viro-me e vou direto ao computador. Nele, sinto a sensação de que, nas palavras, posso também seguir em frente.

Alheio às nuvens escuras que começam a se juntar no céu, penso no pássaro e na sua liberdade autêntica. Também, na pedinte consciente da sua “escravidão”, ainda que perambule com liberdade pelas ruas da cidade. Penso, ainda, na pequenez que me compõe, tornando-me meio-termo nesse cenário de inconstante permanência.

E antes que o dia termine cá estou eu, sozinho em mim. Assim como tem sido ultimamente. Assim como, ao que parece, sempre haverá de ser...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

De Nada


O casamento da gramática dançou.
A dança da lógica já era...

Letras.
Dígitos.
Acentos.
Palavras.
NADA basta para o papel.

Folha da árvore da mente.
Penhasco profundo para idéias.
Cabeça e mundo.
Cérebro e esponja.
Neurônios vivos.
Palavras loucas saídas do NADA.

Efuso.
Efúgio.
Eflúvio.
Parentes da fonética nem sempre são.
Assim como a coletividade.
Palavras de um tudo.
Fonemas mudos de NADA.

O casamento da gramática dançou.
A dança da lógica já era...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Rei, a Sombra e a Máscara

"Vós sois o rei. E no reino dos universos paralelos, vós também sois a sombra. O rei e a sombra convivem nesse vasto mundo que rege as ações humanas: equidistantes, antagônicos, afins; a luz e a escuridão viventes num vácuo profundo de possibilidades. Mas o rei não usa adornos valiosos, nem coroa de ouro, nem manto real; o adereço único é um escudo moldado para confundir, uma capa formada pra encobrir a alma plebéia: a máscara. Eis a tua nobreza, pobre rei. Aonde nosso reino chegará"?

Texto da contracapa do livro "O Rei, a Sombra e a Máscara". Lançamento dia 18 de novembro, 20h, na AABB Recife. Informações: www.sidneyniceas.com.br

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Entre a Vela e a Escuridão

A mente conjeturava. Percebendo-me luz e sombra, matéria e energia, vi-me um tanto iluminado. E não porque me achava maior. Ou melhor. Simplesmente, porque me senti somente eu.

A mente seguiu afoita. De olhos abertos pude ver. De olhos fechados, pensei. Longe de qualquer inquietação externa, segui mergulhado em mim mesmo, acreditando no poder de apenas ser. Eis que, no auge de minhas divagações, a luz deixou-me ao léu. Misturei-me com a sombra da noite, inevitavelmente. Onde está minha luz?

Já não fazia diferença estar de olhos abertos ou fechados. A mente, contudo, não parou. Ela não cessa jamais. O que será ela? Meu verdadeiro eu? Ferramenta que a mim reflete? Que a mim influencia?

Lembrei da morte. Minha visão de fim, refletida na escuridão, contrastou com a idéia de eternidade. O sentido de viver às vezes não faz lá tanto sentido, ainda que não se possa compreender de pronto o desconhecido. Sei quem sou. E isso tem que me bastar para sentir o cheiro sutil da imortalidade. A mente, então, que se contente.

Tateei o vazio e nada consegui enxergar. Com dificuldades, uma vela e uma caixa de fósforos peguei. No escuro, miúdo foco de luz surgiu com a vela acesa. O lume aclarou pequena parte do ambiente e minha visão percebeu as tênues nuanças do local. Luz e sombra agora dividiam comigo o espaço físico da pequena sala, ambos compartilhando-se, fazendo-me atinar quanto à necessidade de conviver comigo mesmo e, mais ainda, de escolher o meu próprio caminho.

A escuridão, assim, dividiu-se em duas. E eu me percebi em dois. Os caminhos se apresentaram. O paradoxo se fez presente...

. . .

OBS.: o texto aqui publicado não faz parte do livro O Rei, a Sombra e a Máscara, mas tem tudo a ver com a temática da obra, que será lançada em novembro próximo. Aguardem...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Conflito Internético

Seu Ferreira era daqueles idosos alheios à modernidade. Mas, por insistência da filha, dedicou três ‘longos’ meses ao aprendizado da informática, com ênfase em internet.

- Bom: hoje é o último dia de aula do nosso curso de informática da melhor idade. E vocês vão navegar sozinhos pela internet! Escolham e acessem sites em que possam interagir com conteúdos disponíveis na web...

As palavras do professor aguçaram a curiosidade de Seu Ferreira. Clica pra lá e clica pra cá, viu um banner que dizia “Sua Companhia na Internet”.

- Olha... Deve ser um daqueles sites em que se conversa com outra pessoa em qualquer parte do planeta. Vou entrar...

DILIÇA diz: oi

FERREIRA diz: Olá! Seu nome é ‘Diliça’ mesmo ou é somente um apelido?

DILIÇA diz: eh meu nic

FERREIRA diz: Nic? Seu nome é Diliça ou Nic?

DILIÇA diz: ?

DILIÇA diz: d q eh q vc ta afim?

FERREIRA diz: Afim? Como? Afinidade com o que?

DILIÇA diz: oh sou tipo samurai atako p cima e p baxo

FERREIRA diz: Você é de que país? Japão? Porque não estou entendendo direito o que você quer dizer, senhorita...

DILIÇA diz: brazuka msm

FERREIRA diz: O que?

DILIÇA diz: ?

FERREIRA diz: Hã?

Após uma breve pausa sem resposta, Seu Ferreira continuou.

FERREIRA diz: Sou novato por aqui. Qual o seu melhor passatempo aqui?

DILIÇA diz: faço tudo q vc pidí

DILIÇA diz: oq vc kizé

DILIÇA diz: me chamã di enssaciavel

FERREIRA diz: A senhorita é de onde mesmo?

DILIÇA diz: mi da teu cel

DILIÇA diz: ligo daki agora

FERREIRA diz: Acho que a senhorita é japonesa mesmo, pois não estou entendendo direito o que você me escreve...

Novo hiato entre as partes.

DILIÇA diz: aloww

FERREIRA diz: A senhorita ainda está aqui?

DILIÇA diz: q fofo

DILIÇA diz: nigen mi chama assim

DILIÇA diz: vmo saí vmo

FERREIRA diz: Olha, eu bem que gostaria de conversar com você aqui pelo computador, mas a senhorita está me deixando confuso. Não estou entendendo direito...

DILIÇA diz: ótimo eh melhor ao vivo msm

DILIÇA diz: olha tenho corpo depilado e sou kbç

DILIÇA diz: e sou gay total. posso ser ativo ou passivo

FERREIRA diz: Como é?

DILIÇA diz: si ñ come vai si arepender amor. e cobro barato

Após um novo e revelador hiato, Seu Ferreira enfim entendeu o que ali se passava.

FERREIRA diz: Pederasta dos infernos! E ainda é ignorante... Vai aprender a escrever, peste!

DILIÇA diz: groço !!!!

DILIÇA diz: entra aki e dpois amarela

DILIÇA diz: bixa irustida...

Sem saber o que mais escrever – e emputecido! –, Seu Ferreira meteu o dedo no estabilizador e desligou a máquina sem nenhuma cerimônia. Seu gesto abrupto, evidentemente, chamou a atenção do professor.

- Seu Ferreira? O que foi que houve?

Ignorando as palavras do homem, o idoso levantou enfezado e extravasou:

- Pederasta burro dos infernos! Nunca mais pego nesse troço! Quero saber dessa porcaria de internet mais não!!!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pão, Mortadela e uma Noite Insípida

Passava das dezenove horas quando Antônia se despediu da família. Solteira, estudante de pedagogia e estagiária numa creche pública, ela deixou a residência com destino à parada de ônibus, buscando a condução que a levaria para a faculdade.

Nesse mesmo horário, Tayane já se encontrava na escola em que lecionava. Casada, mãe de duas filhas e com 12 anos de profissão na rede pública de ensino, ela desafiava a si própria na tentativa educar e socializar jovens alunos dum bairro pobre da periferia do Recife.

Antônia andou por cerca de 50 metros, quando foi abordada por dois elementos numa moto, capacete na cabeça e discurso incisivo: “Passa a bolsa e não corre...” – falou um dos meliantes. Em seus 22 anos de vida, essa foi a primeira vez que ela recebeu voz de assalto, ainda que nenhuma arma lhe fora mostrada. Tensa, entregou o acessório e retornou andando, sentindo um misto de medo e raiva, sensação que refletia a humilhação de ser intimidada e lesada por estranhos. Restava-lhe voltar para casa e tomar as providências necessárias.

Tayane, naquela noite, não deu aula. Apenas três alunos compareceram e ela decidiu, assim, liberá-los. Ociosa, ao invés de voltar para casa, resolveu assumir a biblioteca, suprindo a ausência da responsável pelo setor. A consequente solitude no recinto a pôs num risco inesperado: os três alunos outrora liberados surgiram no local e decidiram fazer zoeira. Firme no propósito de controlar a situação, não percebeu um dos rapazes furtar-lhe a bolsa. Minutos depois da saída dos jovens, Tayane deu o acessório por falta e não conseguiu evitar a sensação de raiva e medo que lhe afetara, reflexo da humilhação de ser lesada pelos próprios alunos. Restava-lhe ligar para o marido e, com ele, tomar as providências necessárias.

Antônia, após extravasar toda sua angústia num choro inevitável, tratou de cancelar os cartões de crédito e bloquear o celular. Recebendo o apoio da família, contou com a ajuda do padrasto e dirigiu-se à Delegacia de Polícia mais próxima a fim de fazer um B.O. (Boletim de Ocorrência). O mesmo aconteceu com Tayane, que contou com o marido para providenciar idênticos procedimentos.

E foi no prédio policial que as histórias de Antônia e Tayane se cruzaram, a estudante e a profissional da educação envolvidas em situações afins, vivenciando um dos produtos mais cruéis da sociedade: a marginalidade. Elas retornaram para suas casas após os respectivos depoimentos sem sequer terem se conhecido – embora astuto tenha sido o destino.


P.S.: Na delegacia, logo após a entrega dos B.O., os policiais decidiram degustar o lanche da noite. O plantão prosseguiu a base de pão e mortadela. Nada mais pertinente numa noite tão insípida...

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Perseguição

A perseguição havia começado. Pelo largo corredor do movimentado shopping, a mulher seguia com o coração ávido. Embora entre tantas pessoas estivesse, sentia-se extremamente vulnerável naquele ambiente que sugeria conturbação.

Os passos eram comedidos, sincronizados com o temor interno. Seu olhar buscava refúgio, mas só encontrava gente estressada, crianças a choramingar, vendedores em pleno processo de antropofagia comercial. Assim, desbravar o caos mercadológico, digno de um grande centro de compras, era só o que lhe restava.

As batidas do coração aceleraram. A mulher tentou se esquivar da fatalidade, evitando olhar de frente para o perigo. E persistiu numa andança frágil, passível de erros, fadada ao insucesso. Mergulhada num esforço descomunal para não ser alcançada, decidiu mudar de rumo, acessando novo corredor de lojas. Ainda que tenha encontrado um ambiente mais ameno, não conseguiu livrar-se da sensação de acuamento. Mesmo assim, procurou seguir em frente, demonstrando rara obstinação.

Poucos passos, contudo, foram suficientes para que ela fosse alcançada. Todo esforço cedeu ante um mudo convite exposto numa vitrine: atraída pela cobiça – e pela luxuosa peça de roupa lá exibida –, entregou-se à ânsia de consumo que a perseguia desde a entrada no malfadado shopping. “Maldita hora em que decidi entrar aqui!”, pensou. Mas não deixou de agir: as compras duraram quase duas horas e o cartão de crédito ganhou novas cifras para débito na fatura mensal.

Recém-saída da high society, a mulher ainda haveria de sofrer outras dolorosas perseguições consumistas nesse processo indesejado de imergência social. Quem a salvaria, então?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Teste de Gravidez em 2 Horas

Era uma segunda-feira daquelas, bastante agitada. No laboratório, Maria Paula ouvia da funcionária a negativa. “Graças a Deus!”, a adolescente pensou alto, sentindo-se aliviada após o teste de gravidez. O alarme foi falso. O dinheiro ali gasto, não.

“Graças a Deus!”, pensou alto Seu Bonifácio. O laboratório de sua propriedade ia de vento em popa. A demanda a cada dia aumentava, assim como os lucros e, consequentemente, a necessidade de contratar mais gente para dar conta do serviço.

“Graças a Deus!”, também pensou alto Alzira. Naquele primeiro dia no novo emprego, esforçava-se para tão logo se adequar às rotinas técnicas do laboratório. Trabalho ali não faltava.

Aquela segunda-feira não era dia de ação de graças, mas a gratidão daquelas três pessoas era contundente. E Maria Paula voltaria ali outras vezes até ouvir o ‘sim’ – e morreria alguns dias depois disso, numa clínica clandestina, após um aborto mal sucedido; Seu Bonifácio continuaria a lucrar com a promiscuidade alheia – e a ‘adorar’ essa geração ‘malhação’; e Alzira seria em breve avó – e descobriria isso ao ver a filha de 13 anos receber a notícia ali mesmo, no seu trabalho.

Tanta gratidão... E Deus não tem nada a ver com isso...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Da Frase, a Reflexão - Parte 2

“Muitas pessoas desculpam suas próprias faltas, mas julgam os outros severamente. Devemos inverter essa atitude, desculpando as falhas alheias e examinando severamente as nossas próprias”. (Paramahansa Yogananda)

Na fila do banco, o homem de 84 anos de idade se esquivava em aceitar o atendimento preferencial, já que a fila era única. Sem jeito, acabou cedendo e seguiu ao topo da fila. E deixou um relato interessante: "Quando eu tinha uns 12 anos, durante a segunda guerra mundial, furei a fila para pegar querosene. Um homem mais velho me chamou de moleque. Isso ecoa na minha cabeça até hoje", justificou-se.

72 anos depois, o homem mostrava nunca ter esquecido a lição. Procurava apontar o dedo para si antes de fazê-lo para outrem. E ainda que o fato narrado por ele não seja lá tão contundente, exemplifica bem a frase do mestre indiano Yogananda que abre esse post.

É preciso cobrar mais de si e exigir menos do outro. Compreender mais. Ceder mais. Entender que a verdadeira força está nos pequenos (e grandes) atos de amor cotidianos. Absorver a ideia de que, ao invés de julgar, podemos ser útil ao compreender e perdoar as falhas alheias, praticando um dos maiores gestos de caridade com o semelhante.

Não há dúvidas: o ser humano faria do mundo muito melhor se praticasse essa máxima. Fica aqui o convite...

sábado, 4 de setembro de 2010

Nada de Nadar em Nada

Não sair. Tirar férias. Eis que a mente um dia tornou-se algo fértil. Sobre mim pesam as palavras. Sobre a mesa pesam as toalhas. Sobremesas deixam-me com vontade de comer novamente.

Os gases comem o ar e penetram em minhas veias. O barulho corrompe o que vejo, sem deixar nenhum rastro que seja. Perturbo-me com o nada. Calo. Desligo. ‘Off’ é o que apenas quero. Nada de nadar em nada. Nada de zumbido agora. Zonzo, sinto minha cabeça mergulhar em mim, como um inseto rumo ao fim do dia.

Deixo rolar. Sinto rolar. Quero rolar. Rolo. Rolo como um rolo rolando na parede. Tinta para lá e para cá, expressando o branco que somos, enfeitando a casa como se fosse ela verdadeiramente nós. E os quartos? As salas? Os banheiros? A cozinha? Preciso arquitetar-me com maior tenacidade. Afinal, sou muito mais que estas belas paredes sem vida.

Perdi o fio. Sentado na poltrona deixo que todas as letras da minha mente invadam minhas mãos. Como numa teia, meus dedos articularam o máximo que pude. Houve perdas, sem dúvida. Mas quem não perde... Sempre?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Duas por Minuto

Isso mesmo: a cada minuto, pelo menos duas mulheres e/ou crianças são vendidas para fins de escravidão sexual. A maioria pobre, levada para a Europa, seduzida pela ilusão de uma vida melhor ou, no caso das crianças, sequestradas ou aliciadas.

Casos não faltam. Como a da Russa Oxana, 20 anos, seduzida por uma oferta de emprego na Europa e que se suicidou após 3 semanas, quando já não aguentava mais ser escravizada sexualmente por aqueles que a enganaram. Ou da pequena Amita, que viveu o terror dos 09 aos 14 anos de idade, vivente numa jaula para ser sodomizada diariamente por dezenas de homens – Amita morreu aos 14 anos após ser agredida violentamente.

Duas por minuto. Escravidão. Subjugo. Covardia. Brutalidade. Enquanto uma minoria “exercita” o lado mais sombrio do ser humano, a maioria permanece inerte.

Duas por minuto. É preciso agir...

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Para ajuda on-line e maiores informações:

https://secure.avaaz.org/po/fight_rape_trade/?cl=524965312&v=5744

https://secure.avaaz.org/po/russia_rape_trade_putin/?r=act

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Da Frase, a Reflexão - Parte 1

“O sábio olha todo mundo como seu mestre. O ignorante considera todo mundo como seu inimigo”. (Atreya)

O mundo dos ignorantes. Eis onde vivemos. Os poucos sábios que por aqui passaram sempre deixaram a mesma mensagem. E, absortos em nossa ignorância, seguimos. Mas, pra onde realmente estamos indo? Vale a reflexão...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Morte, Intolerância e Pequenez

A cada dia, os ponteiros do relógio parecem acelerar, trazendo a impressão de que estamos chegando realmente ao fim. Teoria apocalíptica? Não...

O mundo ferve num caldeirão de intolerância. De um lado, a água invade o território paquistanês, deixando milhares de mortos e milhões de desabrigados e desalojados, enquanto a ONU patina para conseguir dinheiro das nações mais abastadas. Doutro, os ciganos sofrem sem o direito de ir e vir na Europa, especialmente na França, começando a ser ‘repatriados’. Na Alemanha os javalis, alvos da caça humana, estão contaminados pela radioatividade, o que anda ‘prejudicando’ os caçadores e industriais da carne.

Na Espanha, um touro foi abatido logo após enfrentar uma multidão e ferir dezenas de pessoas que se ‘divertiam’ numa tourada. E nos Estados Unidos, uma funcionária de um restaurante na Disney foi ameaçada de demissão apenas por ter usado o hijab (véu islâmico) no dia do Ramadão.

Paquistaneses são seres humanos e merecem nossa ajuda e atenção - ainda que o país seja instável pelas questões atômicas. Ciganos são seres humanos e têm direito a liberdade - ainda que vivam de modo próprio. Javalis e touros são seres vivos e precisam da nossa fraternidade - ainda que muitos os vejam como meras peças descartáveis de diversão e consumo. E Muçulmanos são, antes de tudo, humanos, independentemente de suas culturas e tradições.

Aqui se chega. Aqui se vive. Aqui se vai. O ser humano ainda não entendeu que tudo nesse planeta é passageiro e “emprestado” a cada um de nós. E a Terra, que deveria ser um habitat de paz sem fronteiras, vai girando cada vez mais veloz, como que numa avidez por se livrar dessa amiudada raça humana.

A cada dia, os ponteiros do relógio parecem acelerar, trazendo a impressão de que estamos chegando realmente ao fim. Teoria apocalíptica? Não...

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Em tempo: faça uma doação para as vítimas paquistanesas através da Avaaz. Clique abaixo para doar...

https://secure.avaaz.org/po/pakistan_relief_fund/?cl=712633811&v=6984

domingo, 15 de agosto de 2010

Fracasso!

O que resulta do medo? Do equívoco consciente (ou não)? Da teimosia que inibe a ousadia de tentar outra vez? Às vezes, da própria incapacidade de mudar?

O fracasso. Este que denota derrota e que camufla a força interior - sempre vitoriosa. Este que, na verdade, nem existe. Que é apenas um estágio momentâneo e necessário para mostrar que o caminho percorrido era inadequado ou que foi feito de forma equivocada.

A sensação de derrota, contudo, se esvai quando o indivíduo faz valer uma lei universal infalível: a renovação. Negar-se a chance do recomeço, seja em que esfera for, é a afirmação ilusória do fracasso.

Perpetuar isso é negar todas as possibilidades de vitória e sucesso, mesmo quando já se tentou tantas vezes. É valorizar mais os erros que os acertos. É, enfim, não se permitir novos horizontes - mesmo em terrenos já percorridos.

Coragem! Vamos em frente!

“A gente não é super herói nem super fracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso”. (Roberto Shinyashiki)


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OBS.: você deve estar se perguntando do porque da imagem que ilustra este post. A foto revela o quanto somos miúdos nesse vasto universo. Por isso mesmo, fica o recado: não desperdicemos o nosso breve tempo neste plano desistindo do êxito. Persistir é preciso...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Meu Breve Tempo Infinito

Vivo como o tempo.

Vivencio o hoje

Tal como o ontem,

Tal como o amanhã.


Vivi esse mesmo hoje

Como jamais antes vivi,

Como jamais viverei...

Apenas vivi.


Viverei meus ‘hoje’

Como sempre quis,

No andar, morrer, crescer,

No tentar ser feliz.


Como o tempo

Viajo mudando os passos

Sem, no entanto, mudar o rumo,

Somente a andar,

Somente a viver.


Sei quem sou,

Quem fui e quem serei;

Passado no presente,

Presente no futuro,

Um tempo que somente eu sei.


E com meu breve tempo infinito

Partirei sem ausência,

Ficarei na essência,

Somente como o tempo eu serei:

Passado, presente, futuro...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A Corrida e o Paradoxo de Viver

A verdade não existe. Tudo no universo é uma questão de ponto de vista. A vida e todas as suas fases, a morte, o mistério de apenas ser... Há de se explicar o paradoxo de estar vivo, mas nada atenua minha ânsia por explicações.

Eu sou um mistério. Vagam em mim todas as respostas, mas permaneço tentando encontrá-las. Cada etapa percorrida traz-me à tona em todas as minhas ambiguidades. Minhas verdades não são verazes, apenas me impulsionam a específicos pontos de vista, estreitos olhares baseados no meu ínfimo conhecimento do que é real. E embora procure sempre sorrir com pormenores, vivo focado em mim mesmo sob esse mistério chamado realidade.

A história continua. Vejo-me rodeado por questões ambíguas e não hesito em me deixar levar pelas minhas próprias divagações. Como um piloto de corridas desafio-me a todo instante, sem esquecer de como tudo começou. Regrido e vejo as engrenagens funcionando. A máquina está pronta. Na partida, adentro com entusiasmo e ponho-me a correr. Tornamo-nos – eu e a máquina –, apenas um. E, uma vez fundido, não encontro maneiras de voltar.

A quilometragem vai se multiplicando, projetando-me em situações diversas. Cada etapa percorrida parece-me fácil, ainda que tenha encontrado inúmeros obstáculos pelo caminho. Envolvo-me em acidentes. Chego a me perder em algumas etapas por descuidos inocentes. Bato de frente comigo mesmo e com outrem. Acumulo hematomas, cicatrizes e, principalmente, aprendizado... Mas a corrida não acabou.

Segui e ainda sigo, eu e minha máquina, persistentes, virando 365 curvas para cumprir cada etapa. Cada curva, assim, é um desafio contumaz para a conquista final. E quem serão os vencedores? Os que chegarem à frente ou os que conseguirem apenas chegar? A corrida continua...

Assim é o tempo: para uns, remédio; para outros, impiedoso destruidor de sonhos; para muitos, simples armadilha necessária para o viver. Eu sou tu. Tu e eu também somos nós. Eis aí o nosso mistério mais próximo e ao mesmo tempo mais inatingível: nascer, crescer, envelhecer, morrer... O que é a vida afinal, além desse intrigante paradoxo?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Dor do Mundo em Mim

Eu sinto a dor do mundo em mim - afinal, também sou parte dele...

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A queda dos que acreditam que detém "poder" apenas porque possuem fama e dinheiro.



A violência daqueles que não sabem controlar as próprias emoções.


O extermínio de seres inocentes, não humanos, apenas para saciar os próprios desejos inconsequentes.


O preconceito por conta de uma miopia moral coletiva.


A desigualdade social, fruto de um individualismo danoso.


O culto à imagem, que distorce os reais objetivos do viver.



E as catástrofes se acentuam.


E os humanos, tão absolutos, sucumbem ante a grandeza do universo.


E as crianças crescem cada vez menos infantis.


E os adultos projetam-se num canibalismo social cada vez mais pungente.


E as mortes cruéis vão deixando a vida sem valor.


E a humanidade permanece sofrendo - até "o dia depois de amanhã".


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Eu sinto a dor do mundo em mim - afinal, também sou parte dele...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Dom Hélder, os Mortos e os Vivos

Dom Hélder Câmara não morreu! Eis a constatação tardia de muitos religiosos, especialmente após a publicação do seu mais novo livro, intitulado “Novas Utopias”. E Dom Hélder realmente não morreu - afinal, quem morre?

O lançamento do livro não é mais novidade. O fato de a obra ser uma psicografia, também não. Contudo, conferir as extraordinárias ideias desse espírito fabuloso após sua partida deste plano de vida causou reboliço em parte da Igreja Católica. Comunicação entre os mortos e os vivos? E a doutrina católica? Como fica?

O próprio Dom Hélder traz luz ao tema, num trecho de uma entrevista feita pelo médium Carlos Pereira (que psicografou a obra): “A nossa Igreja (Católica), por si só, já prega a existência da vida após a morte. Logo, fazermos contato com o plano físico depois da morte seria uma consequência natural”.

Pois é. Não existe mistério. Os mortos e os vivos não passam de ser, ambos, viventes. Não importa a religião, a cor, o status social. Todos partem daqui e retornam à verdadeira moradia. E a vida continua. “Ao deixar a existência no corpo físico, continuo como padre porque penso e ajo como padre. Minha convicção à Igreja Católica permanece a mesma, ampliada, é claro, com os ensinamentos que aqui recebo”, reforça Dom Hélder.

O livro, apesar das controvérsias, vem para ajudar a reduzir o preconceito religioso. “Não há divisão entre espíritas e católicos no seio do Senhor”, complementa o Dom da paz. O monge beneditino e teólogo Marcelo Barros, que secretariou Dom Hélder por muitos anos e foi responsável pelo prefácio da obra, também deixa claro esse ponto de vista ao reconhecer a autenticidade do comunicante e a originalidade das ideias (sem falar que a própria igreja aceitou ficar com metade dos direitos autorais do livro, através do Instituto Dom Hélder Câmara – a outra metade foi doada à Sociedade Espírita Ermance Dufaux, em Minas Gerais).

Alheio a essas possíveis controvérsias, Dom Hélder deixa no final da entrevista uma mensagem única e verdadeira, que, com simplicidade, faz cair qualquer rótulo ou preconceito: “Amem (...) O amor, conforme nos ensinou o Nosso Senhor Jesus Cristo, é a grande mola salvadora da humanidade (...) Não há outra mensagem a deixar senão a do amor”.

Falar de amor num planeta onde reina o ódio parece paradoxal. Mas as coisas são mesmo assim. Amor e ódio, espíritas e católicos, mortos e vivos... A dualidade no mundo é intransigente. O complexo social vivente aponta tão somente para as divisões, para as limitações, para os opostos. Essa é a dimensão que ainda nos abriga – e aonde somente o amor irá, com o tempo, modificar esse quadro atual.

O véu do desconhecido, contudo, anda caindo e obrigando todos a reverem certos conceitos. Já estava na hora, não?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Caos Digital


Sorria... Você está sendo filmado.
Somos todos monitorados nesse mundo das ilusões.
Você é o número do CPF.
A senha do banco.
A identidade.
O contra-cheque.
O número do cartão.

A sua realidade é virtual.
Microcâmera, microfone, satélite.
Vírus, disco rígido, spyware.
Biorrede, nanotecnologia, telescópio.
Luneta, olho nu, binóculo.

Seu nome são números camuflados.
Você é um e-mail constantemente acessado.
Orkut, Messenger, you tube.
Paparazzi, voyeur, a fofoqueira de plantão.
GPS, celular, onda de rádio.
A fechadura da porta.
A máquina digital – vídeo e foto sempre à mão.

A sua cabeça é a Internet.
Você é apenas um código nesse caos digital.
Corpo são, mente sã, tudo sempre conectado.
Por isso não adianta se esconder...
Você está sendo filmado...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

5 de Copas

O dia é 17. O mês, junho. O ano é 2010. Cinco, contudo, são as reflexões...

A primeira é futebolística. A Copa do Mundo está aí trazendo inúmeros paradoxos. Do luxo dos estádios à pobreza do povo africano. Da festa multicolorida dos endinheirados à fome que assola boa parte do continente africano. Do patriotismo quadrianual do brasileiro ao sentimento de que a política do pão e circo nunca saiu de moda...

A segunda vem dos céus. As fortes chuvas que assolam a capital pernambucana chegam trazendo um pouco de frio a essa terra calorenta. Vem do alto provocando estragos cá embaixo. E revela que a infraestrutura do Recife continua a passos lentos, especialmente quando comparada com o acelerado ritmo do seu crescimento urbano.

Com o cair das chuvas vem a terceira reflexão: a proliferação da Dengue. Recife já teve, em maio, a primeira morte provocada pela doença. O que está faltando? Empenho das autoridades? Ou dedicação da própria população?

A quarta invade a greve dos professores da rede recifense de ensino. A educação, área tão esquecida pelas nossas políticas públicas, permanece sendo alvo de protestos. Dessa vez, ao menos, os alunos não estão sendo prejudicados. Fico somente a me questionar até quando o desequilíbrio nessa área persistirá...

A quinta e última reflexão: os festejos juninos. Estes que também trazem inúmeros paradoxos. Do sentido religioso à festa predominantemente pagã. Da tradição ultrapassada dos fogos e fogueiras às delícias da culinária a base de milho. Do predomínio sazonal do forró (do original e do falsificado) às grandes festas com atrações que nada têm a ver com a nossa cultura.

Pois é. O dia é 17. O mês, junho. O ano é 2010. Cinco, contudo, são as reflexões...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

7 HÁ

cegueira no olhar.

Por isso às vezes olho...

E não enxergo.


loucura na mente.

Por isso às vezes penso...

E não raciocino.


vida em meu coração.

Por isso às vezes morto...

Sinto-me vivo.


tristeza na alegria.

Por isso às vezes triste...

Ainda sorrio.


Tudo em mim.

Por isso mesmo sem estar...

Estou aqui.


.

Podes crer que ...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ponto de Maturação

Nascer é, literalmente, um parto. A dificuldade de vir ao mundo. O impacto da chegada, o esforço para a primeira respiração, os primeiros momentos de adaptação a uma nova realidade. Passei por tudo isso, como todos passamos, embora sem a consciência real desse nascimento.

Três anos são suficientes para a referida adaptação. Período esse em que o pequeno ser a tudo ama. Ele é pleno, livre, autêntico – ainda que dependente. E é com o passar dos anos que a sociedade “molda” o indivíduo. As noções do certo e do errado, o sim e o não, a dualidade que permeia a vida social humana. Passei por tudo isso, como todos passamos, embora só alguns despertem, com o tempo.

Eis o ponto de maturação. A maioria morre e sequer atinge esse ponto. Vive como mais um ingrediente da massa. Os que despertam, sim, passam a compreender melhor a realidade que cerca todos os viventes. E a “verdade” que surge para cada um só amplia a responsabilidade de viver e contribuir com o mundo à volta.

A grande questão é que, nesse trajeto, vivenciando o tal ponto de maturação ou não, todos perdemos algo. A vida é assim. E o pequeno ser que amava a tudo passa a amar cada vez menos coisas. O mundo vai se fechando à medida que as dores burilam. E o admirável mundo novo vai se tornando cada vez menor. Estou passando por isso, como muitos também estão, embora só alguns tenham consciência disso.

Hoje, por exemplo, posso contar nos dedos as coisas que amo. E talvez nem complete os dedos das minhas duas mãos. Mas não posso, não devo e não quero me reduzir nesse contexto. Nascemos para ser “mais”. E é somente buscando a nossa natureza divina que podemos conquistar a singularidade num mundo tão plural – e desigual.

Eis o ponto de maturação...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Outros Tempos...

Seguia com certa avidez pela Avenida Doutor José Maria, na Tamarineira, já nas imediações do Parque da Jaqueira. Dirigia meu veículo com destreza, tentando chegar logo ao meu destino, já que tinha importante compromisso de trabalho.

O semáforo amarelou. Acelerei para fugir do seu vermelho inclemente. Sem correr riscos, atravessei o cruzamento com a Avenida Rosa e Silva. Tudo tranquilo. Todavia, um pedestre atravessava a rua mais à frente. Nenhum risco de colisão. Reduzi a velocidade, normalmente, e aí percebi que o transeunte era um senhor de idade, que andava com certa dificuldade e gesticulava brandamente com as mãos, como que pedindo calma para que atravessasse em segurança. Viajei naquela imagem...

Em mim, a constatação de que, sim, vivemos outros tempos. A era da aceleração, da correria, da desatenção, da individualidade. Ao passar pelo velho homem, dei uma buzinada de leve, como que me solidarizando como ele. Em vão. Pela sua expressão desolada, percebi que nele ficara a certeza de que está mesmo ultrapassado – alguém de uma época mais amena ‘forçado’ a viver nessa selvageria social da atualidade. E ainda que eu, conscientemente, não me sinta incluído nisso, não deixei de me afetar.

São outros tempos, realmente. A selvageria superou o bom senso. A sede pelo poder há muito superou o senso de coletividade. Aí entro naquelas reflexões sobre o futuro. Se o presente assim nós é, como enxergar o futuro?

Foi quando lembrei uma notícia publicada no JB online, datada de agosto de 2004 (assim como o tema foi mote, posteriormente, de várias outras matérias em sites e publicações de renome). O teor? A erupção do vulcão Cumbre, na Ilha de Palma (Canárias), que irá provocar ondas gigantescas que atingirão grande parte do globo terrestre em questão de horas. Sem previsão exata para acontecer, as possibilidades de uma catástrofe global são imensas.

(no Google, bastar colocar o nome do vulcão para conferir as notícias a esse respeito)

Será uma mudança forçada de ritmo? Será a resposta do universo para o bumerangue sangrento que estamos atirando dia a dia? Será o meio mais eficaz para ‘limpar’ nosso planeta de habitantes tão desumanos? Será a confirmação de tantas profecias que vêm nos avisando há tanto tempo? Será?

Independentemente de qualquer resposta certeira, fico com a imagem do senhor de idade tão carente por uma vida mais humana. Sua feição de desencanto ainda provoca em mim um desejo de mergulhar na verdadeira paz que o mundo precisa. Só não sei se esse mergulho dar-se-á nas agitadas águas de um megatsunami...

sábado, 22 de maio de 2010

O Toureiro

Arena sempre lotada. Touros indomáveis à solta. Ameaças ininterruptas. Risco de morte iminente. Desrespeito à vida. Culto à mediocridade. Tradicionalismo decadente. Tragédia que encanta. Diversão às custas do sofrimento alheio.

A arena é o mundo. Os touros, os ignorantes. As ameaças, fruto do desequilíbrio coletivo. O toureiro, assim, é cada um de nós - viventes nesse espetáculo perigoso e fascinante chamado vida. Nascemos. Arriscamo-nos. E com o ornamentado pano do jogo de cintura, teimamos em querer destruir os touros indomáveis que nos ameaçam.

Vivemos (ou sobrevivemos). E esquecemos que essa batalha covarde numa arena é desnecessária. Infligir dor para não ser atingido? Entreter para satisfazer nossa ultrapassada ânsia pelo poder? Subjugar para não querer ser subjugado?

Arriscamo-nos, é verdade. E é aí onde desandamos. Viver, então, deveria ser apenas nobre ato de contrição perante a própria magia de estar vivo. Com dignidade. Fazendo da arena não um campo de batalha, mas, sim, um espaço global que possa ser compartilhado – touros e toureiros em perfeita sintonia.

Eis a verdadeira tourada. Eis o verdadeiro espetáculo. Estou tentando ser o verdadeiro toureiro...