segunda-feira, 23 de junho de 2008

Matéria no JC

REVOLTA DO TORCEDOR
Nação pernambucana não se dobra
Publicado em 22.06.2008

Confusão na partida Náutico x Botafogo reativou a queixa e a reação ao preconceito do Sul-Sudeste

Marcelo Cavalcante
mcavalcante@jc.com.br

Hildo Neto
hpneto@jc.com.br

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Momentos antes de a bola rolar entre Náutico e Vasco, pela 6ª rodada do Brasileirão, no Arruda, veio da torcida uma vaia ao Hino Nacional. O tom antinacionalista que invadiu a arquibancada revelou, pelo menos no futebol, uma ponta de insatisfação e revolta, pendendo para o perigoso sentimento de separatismo. A atitude coletiva foi desencadeada com a punição imposta pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) ao Náutico – perdeu dois mandos de campo – por conta do tumulto causado pelo zagueiro botafoguense André Luís.

Com o orgulho ferido, alguns alvirrubros viraram o rosto para a pátria. A rebeldia e o desejo de independência tomaram conta também das demais torcidas do Estado. Hoje se vive algo que já vem de anos e anos atrás e muito além das quatro linhas do gramado. No século 19, por exemplo, o Estado foi palco de guerras históricas, como a Confederação do Equador e a Revolução Pernambucana. O futebol só reacendeu o estopim.

A decisão do STJD de interditar o estádio dos Aflitos, por causa dos tumultos ocorridos na partida Náutico x Botafogo, foi encarada como injusta não só pelos alvirrubros, mas também pelos rivais tricolores e rubro-negros. “Não tenho dúvida de que eles agiram de forma preconceituosa”, declarou o presidente alvirrubro Maurício Cardoso.

Após toda confusão, a mídia, sobretudo do Sudeste, ajudou a fazer do Recife um verdadeiro barril de pólvora. As cenas do tumulto nos Aflitos foram exibidas exaustivamente. Assim, o clima de guerra acirrou-se para a final da Copa do Brasil, entre Sport x Corinthians. Ao desembarcar no Recife e sentir o clima pesado da partida, o presidente corintiano, Andrés Sanchez, alertou: “Minha gente, isso é apenas uma partida de futebol. Não é uma guerra de Estados”.

Por outro lado, devido à falta de ingressos para a sua torcida, Sanchez responsabilizou o presidente do Sport, Milton Bivar, caso alguma tragédia acontecesse. O dirigente paulista, no entanto, “esqueceu” que os ingressos para os rubro-negros no primeiro duelo, no Morumbi, também foram reduzidos.

Enquanto isso, torcedores rubro-negros e alvirrubros se solidarizaram. As primas Karyna Campos, 28 anos, e Juliana Barreto, 30, são exemplos. Torcedoras fanáticas do Náutico, elas apoiaram o Leão na final. “Vi muitos corintianos menosprezando Pernambuco. Por isso, torci para que eles perdessem”, relatou Juliana. “Foi uma vitória do Estado”, declarou Karyna, que foi à Ilha.

No estádio do Leão, o sentimento era geral. Além dos gritos “Ah, é Pernambuco!” da torcida, o sistema de som do estádio disparou a canção Nordeste independente, de autoria de Bráulio Tavares e Ivanildo Vila Nova. Bráulio ficou feliz ao saber do fato, mas faz questão de deixar claro que não prega o separatismo. “O intuito da canção foi levantar a auto-estima do nordestino. A gente tem que olhar para cariocas e paulistas e dizer: ‘você não é melhor do que eu’”, explicou.

A revolta que tomou conta da Ilha e dos Aflitos foi reforçada com a transmissão da decisão da Copa do Brasil por uma emissora de TV. Os microfones só captaram os gritos dos pouco mais de mil corintianos que estavam no estádio. A soma dos fatos motivou o relações públicas Sydney Nicéas a propagar por meio do seu blog (2em2) o orgulho de ser nordestino. “O nordestino tem que valorizar mais a própria terra, sua cultura, seu povo. Isso também é independência, o que nada tem a ver com separatismo.”

O jornalista paulista Juca Kfouri, da Rádio CBN, não vê motivos para polêmica. Para ele, a imprensa do Sul e Sudeste é igual à do Nordeste, Norte e Centro-Oeste. “O que há são problemas mal resolvidos. De um lado, a arrogância e a prepotência. Do outro, os complexos de perseguição e de inferioridade”, afirmou. Ele ainda alfinetou a torcida alvirrubra: “Vaiar o hino é provinciano. É melhor ir à porta da CBF.”

O sociólogo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Jorge Ventura não demonstra surpresa diante do atual cenário. “É comum que o olhar da metrópole seja distorcido, com certo preconceito, para a periferia”, afirma.

Essa visão pode ser percebida inclusive nos torcedores recifenses em relação aos times do interior e aos rivais de outros Estados do Nordeste, sempre tidos como sem expressão e fáceis de vencer. “Não sei se nós olhamos Paraíba e Alagoas, por exemplo, com bons olhos.” Para eles, a metrópole preconceituosa pode ser o Recife.

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